Clube do Livro Desconectado

Desconforto

29 de Agosto de 2026
por Thiago Carvalho

4 de setembro de 1987. Ailton Krenak sobe à tribuna da Câmara dos Deputados, durante os trabalhos da Constituinte, e enquanto fala vai passando no rosto uma tinta preta de jenipapo, que entre os Krenak é pintura de luto. A voz é calma e urgente. Os deputados assistem. Aquele gesto ajudou a garantir o capítulo dos povos indígenas na Constituição de 1988.

Quase quarenta anos depois, li A vida não é útil com a sensação, devo confessar, de estar ouvindo um senhor meio chato e reclamão, daqueles que apontam tudo o que está errado no mundo sem oferecer soluções concretas ou possíveis.1

Ter discutido este livro com o pessoal do clube do livro fez uma diferença enorme. Sozinho eu não teria engajado (lutado?) com os temas do livro o suficiente para entender a mensagem. Conversando com pessoas que pensam diferente de mim, lá nos fundos do bar, ficou claro que esse livro não quer ser e não precisa ser um manual de soluções. Por tratar de questões existenciais e urgentes e por ter sido baseado principalmente em transmissões ao vivo feitas durante a pandemia de COVID-19, o livro parece querer incomodar de propósito. Ele te desafia.

Esse desconforto que o livro gerou também me fez ir atrás de outros autores que escrevem sobre questões indígenas. Li O Fruto da Generosidade, da Robin Wall Kimmerer, que fala de reciprocidade, de gratidão, de uma economia da dádiva, uma perspectiva com mais esperança que acredito ser compatível com as ideias de A vida não é útil.

A posição do Ailton Krenak faz todo sentido. Não ter gostado da experiência de ler o livro não é a mesma coisa que discordar das ideias dele. Talvez eu precise de mais espaço na minha lista de leitura pra ler o que os "chatos e reclamões" têm a dizer.

1 Hoje, tendo pesquisado mais sobre o autor, fica muito claro o quão absurda essa ideia é.